O porquê da redondeza

31/5/2012

Quase trinta anos atrás, estava eu alegremente estudando física na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e imensamente satisfeita de ter escolhido uma instituição de nível superior cujo programa, pela inclusão de um certo número de créditos obrigatoriamente escolhidos fora das ciências naturais, não só necessitava como encorajava a freqüentação de outras faculdades, especificamente de ciências sociais e humanas; e cujo campus, constituído de apenas dois prédios aninhados nos prazeirosos morros da Gávea, separados simplesmente por um riachinho atravessado por singelas pontes de madeira, mergulhados em um bosque tropical no qual um pequeno aviário abrigava araras coloridas e brincalhonas, facilitava contatos constantes e contínuos entre alunos e docentes que, senão, tenderiam a cultivar interesses, métodos, e até linguagens estranhos uns aos outros.

Em certo ponto desta experiência universitária, lembro ter me deparado com o que me foi apresentado como uma citação, ou um conselho, supostamente de Carl Jung: “É necessário ser redondo.”

Estas palavras de sabedoria me fizeram fortíssima impressão e têm, desde então, praticamente norteado minha existência.

Palavras compreendidas, primeiramente, no sentido de desenvolvimento da personalidade. A meta proposta me parecendo ser o procurar mais que tudo evitar que esta se torne excessivamente angulosa; mantendo-a capaz de beneficiar de fontes de aprendizado múltiplas, interessada em competências diversas, aberta a diferentes influências; jamais admitindo que se privilegie apenas algumas facetas específicas, que se esteja demasiado focada em certos aspectos seletos, sejam herdados, induzidos ou adquiridos; e especialmente, cuidando de não se permitir dirigir por hábitos pouco ou nunca questionados e, com infeliz regularidade, apesar de os saber nocivos, muito menos abandonados.

Palavras extendidas, em seguida, a um projeto de vida e, ambiciosamente talvez, de sociedade. A Europa, com sua variedade de línguas, de nacionalidades, de religiões, de sistemas legais, políticos e econômicos, tem sido por vinte e quatro anos meu lar, ‘chez moi’, ‘bei mir’, e nos últimos seis anos Londres, que mais do que qualquer outra capital no continente europeu encarna o multiculturalismo cosmopolita, se tornou, indiscutavelmente, ‘my home’. Se devo confessar me sentir por vezes frustrada com o que o sonho da integração européia ainda deixa a desejar, com seu potencial longe de ser realizado, é porque exulto ao imaginar quão mais produtivo seria se tanto os líderes quanto os cidadões europeus tivéssemos a coragem de encarar as responsabilidades mútuas, parássemos de tentar escapar das conseqüências de nossas decisões (o que os franceses chamam ‘vouloir avoir le beurre et l’argent du beurre’, e os britânicos ‘to want to have one’s cake and eat it’), aprendêssemos uns com os outros do que cada um tem de melhor, e desenvolvêssemos a generosidade de reconhecer o muito que nos une, em lugar de resmungar do pouco que nos separa.

Deste maravilhoso posto de observação, o fenômeno que tenho podido apreciar, e do qual tenho ativamente participado, é um planeta que se torna cada vez menor, dentro de uma realidade que se torna cada vez maior. Países como a China, a Índia, a Rússia, a África do Sul, que antes nos pareciam distantes, desconhecidos, misteriosos, (e outros como a Austrália e a Nova Zelândia, no entanto extremamente presentes para quem mora no coração da ‘Commonwealth’, a comunidade das antigas colônias britânicas) hoje estão integrados na nossa rede de relações, quer em termos de fonte de produtos, ou de destinos de viagens, ou meramente de pontos em nossa consciência espacial. Este fenômeno não é novo; ele tem se repetido inelutavelmente ao longo da história da humanidade; é apenas um detalhe de escala. Quando vivíamos, nós seres humanos, cada qual em sua aldeiazinha, aqueles do lado errado do rio ou da colina eram ‘os outros’. Durante os recentes séculos vivemos a expansão destas fronteiras, e aprendemos a ver vizinhos e conhecidos em lugares progressivamente longínqüos. (E poderíamos esperar que nesta atualidade os que ainda teimam em procurar ‘outros’ só os encontrassem do lado errado do oceano ou do continente, não fosse nossa triste teimosia em achá-los onde quer que pensem diferente de nós.) Ao mesmo tempo a Terra passou de centro do Universo a um naco rochoso ínfimo, girando em torno de uma estrela de pouca categoria, na ponta de uma galáxia contendo dezenas de bilhões de outras estrelas, perdida dentre as centenas de bilhões de outras galáxias que compõem este universo, que pode ser apenas um dos bilhões de bilhões de universos possíveis … Como não se tornar humilde, diante desta perspectiva? E como, da humildade, não nascer a irmandade?

Palavras desdobradas, finalmente, na busca da redondeza em todas as suas acepções. Em um mundo redondo, de qualquer ponto que se parta, em se andando sempre em frente, ao que se chega é de volta ao ponto de partida, quer dizer, a si mesmo; da mesma maneira, em se movendo para o conhecimento dos que nos rodeiam, o que descobrimos somos realmente nós. Prestemos atenção ao que anima nosso próximo, e identificaremos nossos mesmos desejos, nossas mesmas frustrações, nossas mesmas dores, nossos mesmos prazeres. E assim acabamos por incluir todos, absolutamente todos, no nosso círculo. E é assim que deve ser.


Sobre Paula:
Baseada em Londres, diplomada em Física Teórica na Bélgica, praticante de budismo tibetano na escola Karma Kagyu, e constante viajante à Índia onde também é bloguista para o jornal “The Times of India”, Paula Gonzaga de Sa traz a perspectiva da diversidade e do multiculturalismo que permeiam e enriquecem uma existência peripatética.

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