Rumo à meta, e para além, com ‘metta’, e atenção

9/4/2012

Prezados leitores que acolhemos no relançamento da revista Meta da Unipaz Bahia, agora em formato virtual, bem-vindos. Obrigado por juntar-se a nós na celebração deste meio de comunicação tecnologicamente renovado; esperamos que aqui vocês sempre encontrem uma comunidade de contribuintes amigos, simpáticos e bem-informados, e um enfoque em temas de interesse e utilidade.

Uma revista é um agregado de palavras, e o que todos nós, contribuintes, desejamos, é que na revista Meta estas sejam não palavras que limitam, que tolhem, que cerceam ou que oprimem, mas palavras que enriquecem a alma, que ampliam horizontes, que liberam o espírito para lidar com a realidade cotidiana de maneira mais sutil, mais amena, mais habilidosa.

O próprio título da revista já é um exemplo deste tipo de palavra. Podemos entender um primeiro, e provavelmente mais óbvio, significado de ‘meta’ como ‘objetivo’, ‘destino’; lá onde queremos chegar, aquilo que pretendemos conquistar, a ambição que nos comprometemos a realizar. Mas não paramos por aí. Porque ‘meta’ também pode ser utilizada no sentido de ‘para além’; observe por exemplo metafísica, metalinguagem, metadados. Isto quer dizer que não nos limitamos a complacentemente imaginar que nosso objetivo, nosso destino, nossa ambição, estarão realizados uma vez por todas ao chegarmos à nossa meta; não; sabemos que alí será apenas o cume de uma montanha, de onde deslumbraremos novas vistas e novos desafios, nos quais nos lançaremos com a mesma energia e com a mesma alegria que até lá nos impulsionaram. (Porque, é claro, é com energia e alegria que toda jornada deve ser empreendida. Esse negócio de encarar tudo com demais seriedade só leva, para parafrasear Oscar Wilde, a úlcera do estômago.)

Em páli, a língua utilizada no cânone da tradição budista Theravada do Sul da Índia e Sudeste Asiático, existe igualmente uma importante palavra ‘metta’. A ‘metta’ do páli não tem nada a ver com a ‘meta’ do português, nem estou eu sugerindo que existe uma ligação qualquer entre estas duas palavras, a não ser a coincidência de pronûncia, de som e sonoridade. Mas a riqueza que vem da serendipidade está justamente na exploração de coincidências insuspeitas; lancemo-nos, pois, em perseguição de nossa ‘metta’.

‘Metta’ é a palavra utilizada no budismo Theravada para designar aquele sentimento que se deve desenvolver em relação a todos os seres viventes, que são todos, afinal, como nós, igualmente prisioneiros desta existência sujeita ao sofrimento, ao aparente acaso, ao mutável, ao periclitantemente perecível; todos almejando à felicidade, tentando desesperadamente escapar da dor e da desilusão, e constantemente falhando em ambos estes esforços e, como resultado, prejudicando consciente ou inconscientemente a nós mesmos e aos que estão à nossa volta, por sobrar em emoções tempestuosas, e carecer de sabedoria; todos, inclusive nós, merecem a nossa compaixão, a nossa boa-vontade, a nossa bondade esclarecida; e isto é ‘metta’.

A maioria de nós tem alguma familiaridade com os conceitos básicos do budismo, por exemplo o não-apego: em uma existência em que tudo é passageiro, mutável, arredio e perecível, é o apego à ilusão das coisas e dos seres serem permanentes, estáveis, seguros e duráveis que provoca o sofrimento; e a serenidade só se encontra em tratar com igual equanimidade o agradável e o desagradável, o bom e o mau, o amigo e o inimigo. Neste contexto, ‘metta’ é um conceito fundamentalíssimo, sem o qual a prática do não-apego corre o grande risco de se tornar estéril e nihilista: se tudo é ilusão, se nada é real, se o objetivo é o supremo desapego, de que adianta então viver? E a resposta é que viver adianta, e muito; viver com desapego não quer dizer viver sem sentimento; mas o sentimento com o qual se vive é ‘metta’: não é o amor romântico e arrebatador dos adolescentes, nem a pena açucarada e condescendente dos santos de sacristia, nem a indiferença dos frios e desajustados: é a realização de que as falhas e imperfeições, nossas e dos outros, são, também, passageiras, irreais, temporárias e elimináveis, e que ‘para além’ delas, podemos vislumbrar o potencialmente perfeito que elas escondem; é no caminho à perfeição que amamos, é das falhas que temos pena, é no esforço do ajuste que manifestamos nosso calor humano.

O budismo tem, como o cristianismo, o islamismo, o judaismo, e até o hinduismo, muitas vertentes. Na escola tibetana à qual eu pertenço (a saber, os Karma Kagyu, que fazem parte da tradição Vajrayana, que privilegia o aspecto mais místico da coisa) uma outra prática extremamente relevante é descrita, em inglês, como ‘mindfulness’. Este é um termo que pode ser traduzido em português como ‘atenção’, ou ‘conscientização’, ou ‘mentalização’; no caso desta última, porém, não necessariamente no sentido de visualização ou concentração no qual a palavra é às vezes usada. (Apesar de concentração, para o budismo em geral, e visualização, para os Vajrayana em particular, serem ambas, também, elementos essenciais da prática. Os Vajrayana povoam sua filosofia com imagens de divindades e demônios, infernos e terras puras; em conversas com uma amiga Theravada, chegamos à conclusão de que nós Vajrayana somos os católicos do budismo.)

É, na verdade, nem tanto ‘mentalização’ de que se trata quando se fala de ‘mindfulness’; é mais ‘mente-em-ação’, e ‘mente-na-ação’. Desenvolver uma atitude de constante ‘mente-em-ação’ implica conservar a mente focada naquilo que é essencial, naquilo que é seu verdadeiro ‘objetivo’, passando ‘para além’ de distrações desnecessárias, de conflitos conturbantes, de tentações trepidantes. Manter a ‘mente-na-ação’ significa aprender a agir, a atuar, a responder a estímulos ou interferências, externas ou internas, com a mente entretanto sempre engajada em como estamos agindo, atuando, respondendo.

Só com esta ‘atenção’ é podemos nos permitir de reagir à violência não com mais violência, mas com paz; de responder ao ódio não com mais ódio, mas com tolerância; e de atuar, face à agressão, não com mais agressão, mas com calma. E é assim que progredimos no passo-a-passo da sabedoria; é assim que nos alçamos rumo à meta (e à ‘metta’) a alcançar.


Sobre Paula:
Baseada em Londres, diplomada em Física Teórica na Bélgica, praticante de budismo tibetano na escola Karma Kagyu, e constante viajante à Índia onde também é bloguista para o jornal “The Times of India”, Paula Gonzaga de Sa traz a perspectiva da diversidade e do multiculturalismo que permeiam e enriquecem uma existência peripatética.

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